Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

O Cão de Obama e as Portuguese Bananas

  1. Os portugueses são talvez o povo com maior número de recordes inscritos no World Guiness of Records. Incapazes de darmos as mãos por causas comuns, tais como levantar o país do esterco político, da pobreza e da ignorância, e acomodados a ser dirigidos por uma elite diletante e medíocre, resta-nos, na solidão de uma garagem de Cantanhede, cozinhar o maior Caldo Verde do Mundo, a mais comprida om olete da História ou fazer o pino a cantar o hino do clube local durante mais de 7 dias, duas horas e alguns segundos. Perante a basbaque colectiva, imbuída de uma histeria nacionalista que extravasa estes grandes feitos para o plano da imensa conquista planetária, lá vai Portugal apresentando o seu melhor, produto da fasquia cultural dos shoppings e novelas, e de uma classe política que deixaria Egas Moniz, D. Henrique, ou mesmo a padeira de Aljubarrota a pensar se não deveriam ter trocado os seus desígnios pelo mais comprido espargo do Universo. No fundo, somos um país que esconde um  Entrocamento em cada bairro, em cada lar: na ausência de um destino comum que valha a pena construir, somos o país da Europa com o maior número de avistamentos de Ovnis por habitante, de curas milagrosas às quais a ciência não soube dar resposta, onde se multiplicam IURDE’s, Professores Carambas ou Zandingas, expulsadores encartados de mau-olhado, maridos-corno e truques infalíveis para ganhar no Euromilhões. E assim vai Portugal. Uns vão bem, e muitos, mal.
  2. É neste contexto sublime do triunfo da mediocridade que proliferam Albertos Joões, Ruis Rios, Valentins, Felgueiras e afins. É um arquétipo de dirigente que vive debaixo da pele de cada português: o espertalhaço, aquele que belisca o rabo da vizinha e ri-se cúmplice aos amigos que, lá do longe, aprovam, o bebedolas da aldeia que afinal até chegou longe no partido, o finório que escamoteia e trafulha com a cumplicidade dos votos. Mas, se neste país se dá mais importância à melancia gigante do que aos feitos de António Damásio, não surpreende que tais exemplos comecem a grassar por aí como regra, ao contrário de excepção. A auto-estima lusa nunca esteve tão baixa graças a esta iluminada ‘elite’ que atira futebol aos pobres e tourada aos ricos, e para quem literatura é vasculhar a vida dos ‘famosos’ em revistas-de-dentista ou, no melhor dos casos, o esfíngico Paulo Coelho na casa de banho do avião para Punta Cana. Eça que se retorça. Agora que as suas prédicas se concretizaram, ou agoniza por ter acertado, ou ri irónico pelo mesmo. Portugal é a pocilga dos lobbys, dos amigalhaços, das cunhas e dos que tem olho. Uma terra de cegos que foi em tempos uma das maiores potências culturais do Mundo.
  3. Sem grandes motivos para se orgulhar, não admira pois que de repente se atirem colchas e icem bandeiras porque o Presidente dos Estados Unidos escolheu para mascote da Casa Branca um ‘Portuguese Water Dog’. O país eufórico, como não se via desde que Scolari ordenou que cada um de nós fosse português e colocasse a dita bandeira na janela (para depois a retirar apressado na derrota), desmultiplicou-se em honrarias ao canídeo. Só a palavra ‘portuguese’ ser repetida à exaustão na CNN, NBC ou Euro News, chegou para apagar as maleitas nacionais, coisa que nem o 25 de Abril fez em 74. De repente este jardim atlântico voltou a florir: as estações televisivas nacionais abriram os seus noticiários com o ‘portuguese’ cão de Obama, o povo, inchado de orgulho, percebeu que o seu país existe e é reconhecido ‘lá fora’. ( Esse eterno ‘lá fora’ que daria um imenso tratado de sociologia..). Milhares de lusitanos entupiram as linhas telefónicas da especialidade com perguntas sobre tão surpreendente raça canina que transporta no nome tanto de Eusébio, de Amália, como dos Descobrimentos! Todos querem ter um. O preço do bicho quadriplicou. E, surpresa das surpresas, descobriu-se que tal variedade de cão-de-água se encontrava praticamente extinto em Portugal, tendo sido resgatado e salvo do mapa das espécies em vias de extinção por uma criadora norte-americana nos anos 70.
  4. Como nós valorizamos de sobremaneira o que é nosso, não me restam dúvidas de que um dia compraremos queijo da serra na cadeia MacDonalds, futura detentora exclusiva da marca, ou Saramagos apenas no Corte Inglês de Vigo, secção: literatura espanhola. Já faltou mais. O que nos vai valendo são estes verdadeiros heróis anónimos que levantam o nome do país com esse actos valorosos e imprescindíveis em qualquer sociedade que se queira afirmar moderna e cosmopolita: o arrastar do camião dos bombeiros apenas com as nádegas, o salpicão fumado mais fálico do planeta ou mesmo o canito Alentejano a quem está assegurado o futuro de mascote oficial de um novo Presidente Americano no Séc. XXII. De novo a palavra ‘portuguese’ voltará então a ser um fenómeno global para gáudio dos nossos valentes bisnetos que aqui resistirem. Se o país não tiver sido entretanto vendido a uma qualquer potência sul-americana que o queira para plantar bananas. Portuguese Bananas.

 

 

Pedro Abrunhosa

Porto, 01 de Junho de 2009

 

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 16:35
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